Vanderlei Luxemburgo entrou em campo para comandar o Cruzeiro usando um terno preto fosco, camisa branca e gravata azul escura. Com cara de poucos amigos, evitou a imprensa e foi logo sentando no banco de reservas. O adversário era o Uberaba, pela 10ª rodada do Estadual de 2004. Apesar do último ano avassalador, quando se tornou campeão dos campeonatos Mineiro, Brasileiro e da Copa do Brasil, Luxa estava ameaçado pela primeira vez em seu cargo, desde 2002, quando chegou ao time da capital mineira. Nos nove jogos da temporada até ali, venceu cinco. Porém, havia perdido os dois primeiro jogos do Estadual, para os modestos Valeriodoce e Caldense, e empatado em casa com o desconhecido Santos Laguna, pela Libertadores, meta daquele ano.
 
Em sua última partida, o Cruzeiro havia sapecado 7 a 1 no Mamoré. Depois do USC, enfrentaria na próxima rodada o grande rival, o Atlético. O jogo contra o Colorado era encarado como um treino e, quem sabe com uma nova goleada, a possibilidade de a equipe engrenar de vez na temporada. Além de manter a base do último e vencedor ano, a Raposa tinha contratado o pentacampeão Rivaldo, eleito melhor jogador do mundo em 1999. Ao que tudo indicava, nada poderia dar errado para o time da capital, naquela quarta-feira de cinzas. Não fosse a noite inspirada de dois personagens: um uberlandense – quem diria – e um europeu.
 
Aderbal Lana chegou ao Uberaba Sport no final de 2003, com a missão de manter o time na Primeira Divisão. O Colorado havia subido para elite do futebol mineiro após 10 anos, desde 1993, sua última participação. Nascido em Uberlândia, Aderbal era filho do ex-ponta direita Ico, ídolo do UEC nas décadas de 40 e 50. Chegou a treinar e ser diretor do clube da cidade natal, em 1978 e 1981, respectivamente. Mas foi mesmo no estado do Amazonas que se destacou, treinando e conquistando títulos por Nacional e São Raimundo, equipes de Manaus. Sem a pompa de Luxemburgo, naquela noite vestia uma camisa pólo branca e um boné com o escudo do USC. Quatro dias antes, tinha perdido para o América, também em Belo Horizonte. Adotaria contra o Cruzeiro uma postura defensiva, afinal, duas derrotas seguidas podiam custar seu cargo.
 
Debaixo das traves, Aderbal contava com Tadic, goleiro nascido em Nikšić, na época Iugoslávia e hoje Montenegro. Zeljko Tadic foi um dos jogadores iugoslavos que vieram jogar no Brasil em 2001, quando o compatriota famoso Dejan Petković vivia boa fase. Grande amigo e padrinho de casamento de "Pet", de quem fora colega no Radnički Niš, clube sérvio, Tadic chegou ao Brasil do FK Partizan para jogar no XV de Piracicaba, de lá atuou no Londrina e Bragantino, até chegar ao Uberaba. Com quase 2 metros e sem falar quase nada de português, Tadic ainda carregada uma ligeira desconfiança da torcida, mas não se incomodava, pois pouco entendia o que vinha das arquibancadas do Uberabão.
 
O primeiro tempo foi bastante equilibrado, tendo o USC chegado até mais vezes ao gol de Gomes, goleiro do Cruzeiro. O atacante colorado Fabinho chegou a chutar uma bola na trave. Do outro lado, o time celeste, que contava com os craques Alex e Rivaldo, se embaralhava na bem armada defesa uberabense. Quando conseguia transpor, parava no goleiro Tadic, seguro nas suas defesas. Ao fim da primeira etapa, podia se ouvir as vaias dos poucos cruzeirenses que estavam no estádio. Luxemburgo, ainda com a cara de poucos amigos, rumou ao vestiário novamente sem falar com ninguém. No segundo tempo, com uma postura mais ofensiva, o Cruzeiro passou a chegar mais ao gol do USC, mas parava no goleiro montenegrino. Os minutos iam passando. A torcida uberabense, presente em bom número, gritava o nome da cidade, que ecoava em um Mineirão em silêncio. Trazer na mala um empate contra um gigante já era visto com bons olhos e o técnico Aderbal recuou o time de vez, garantindo o empate.
 
Rodeado de repórteres, o goleiro Tadic repetia “bô jogo”, em um sotaque carregado, sua única resposta para todas as perguntas. Já sem o blazer, Luxa saiu sem olhar para trás. Seria demitido dois dias depois. No domingo seguinte, antes do jogo do USC contra o Social, a torcida cantou: “Ah! É o fim do mundo, o Colorado demitiu o Luxemburgo”.

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