Foi em um “derby” entre Uberaba e Nacional, em 1968, no estádio Boulanger Pucci, que “Creca” se tornou torcedor do Colorado. “De lá pra cá acabou. Fiquei gostando tanto do time que posso afirmar que fui a 70% das partidas do Uberaba Sport. Em Minas Gerais só não fui a Tombos porque o Uberaba nunca jogou lá”. A afirmação, seguida de uma longa gargalhada, deu início à nossa conversa. E, durante algumas horas, ouvi histórias que valem a pena ser contadas. Que merecem fazer parte dos cem anos do Uberaba Sport Club.
 
Cláudio Divino Alves, o popular Creca, está aposentado. Atualmente, ele não precisa cometer tantas loucuras para assistir às partidas do seu time de futebol. O que para muitos pode significar um desvario, Creca chama de “a maior paixão da minha vida”.
 
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Creca, um verdadeiro apaixonado pelo Colorado: torcedor raiz
 
Adeus, Coca-Cola, que eu já vou-me embora
Qualquer homem aos 30 anos pensa em ter um bom emprego, que lhe garanta estabilidade financeira para constituir uma família, certo? Não quando falamos do Creca. Em Ribeirão Preto, ele conseguiu emprego na multinacional Coca-Cola. O “ordenado” era de fazer inveja a qualquer um. “Eu ganhava seis salários. Era muito na época. Consegui o emprego após passar em uma seleção concorrida. Fiquei em quarto lugar. Com pouco mais de dois anos de firma me desesperei porque o Uberaba começou a disputar a Taça de Ouro. No jogo de estreia, contra o Atlético Paranaense, eu estava quase louco trabalhando na esteira e pensei: ‘não aguento isso não. Vou embora para Uberaba’. O jogo contra o Botafogo (de Ribeirão) seria no sábado. Peguei o primeiro ônibus e fui assistir o jogo. Perdemos com gol do Sócrates no Uberabão”.
 
Na segunda-feira, Creca tomou o ônibus de volta a Ribeirão. Arrependido? Nem um pouco. Àquela altura ele tinha ainda mais certeza de que precisava voltar para sua cidade. No departamento pessoal da empresa, Creca foi ouvido por duas psicólogas. Seria o caso de algum distúrbio? “Tá tudo bem. Eu tô indo porque sou torcedor do Uberaba Sport”, explicou o funcionário. Ao ser indagado sobre o que faria profissionalmente em Uberaba, Creca respondeu que venderia cerveja no estádio. “Mas quanto você vai ganhar?”, perguntou a psicóloga. “Nem meio salário”, respondeu entusiasmado o torcedor desempregado.
 
Sem dinheiro, assistir aos jogos do Campeonato Brasileiro era mais um desafio que Creca teria que enfrentar. “Fui trabalhar lá dentro. Fiquei no placar muito tempo. Fui gandula, porteiro e vendedor de bebidas. Só para assistir os jogos”.
 
Do albergue a emprego em churrascaria
A torcida do Uberaba sempre fez questão de acompanhar o time, mas quando não tinha excursão, Creca tinha que “dar seus pulos”. “Eu ia de ônibus. Rio Grande do Sul, Pernambuco, Bahia. Não tinha lugar longe. Quando o Uberaba foi jogar em Caruaru, saímos às 9h da manhã de segunda-feira, chegamos a Imperatriz na quarta-feira. O jogo era só na quinta, mas de Imperatriz a Caruaru eram onze horas em estrada de chão. Sorte que o jogo era na quinta”.
 
Em Sobral, no Ceará, Creca teve que enfrentar a dificuldade financeira. Com o dinheiro contado para as passagens, o jeito foi arrumar um albergue que pudesse abrigá-lo. “Perdemos por 6 a 3, mas os três gols do Uberaba foram essenciais para que nós tivéssemos a maior emoção da história do clube. Fomos para o jogo decisivo contra o Santa Cruz, no Uberabão. Se ganhássemos com três gols de diferença, iríamos para a Taça de Prata. Se fizéssemos cinco gols, disputaríamos a Taça de Ouro. Ganhamos de 5 a 0 e eu nunca mais esqueci estes dois jogos”. Nesta hora, o bom humor cedeu lugar às lágrimas. Relembrar tantas histórias ainda emociona o torcedor.
 
As lágrimas vêm acompanhadas de saudade. Creca relembra com tristeza os tempos áureos do Colorado. “Naquela época, o Uberaba tinha uma grande expressão nacional, mas também tinha suporte. O Renê Barsan foi um dirigente muito forte, de dinheiro e de opinião. Ele buscava muitos patrocínios, tinha muita influência. O Whady Lacerda também fez muito pelo Uberaba, por nós torcedores. Hoje, não temos mais isso”, lamenta.
 
A conversa foi brevemente interrompida. Maria das Graças, esposa do Cláudio, serviu um café quentinho com pães de queijo. Aproveitei para perguntar o que ela achava das aventuras do marido. “Estou acostumada. Ele já me deixou grávida para viajar atrás do Uberaba Sport. Fui ficar na casa dos meus pais, em Ponte Alta, até ele voltar”, contou. Hoje, o filho do casal, de 16 anos, já acompanha o pai nas longas e divertidas viagens.
 
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Na família, todo mundo é Uberaba Sport Club
 
Creca aproveitou a pausa para buscar dezenas de fotos, ingressos, bilhetes de excursões e passagens. Recordações guardadas em anos de estrada e amor. Debaixo do braço, um caderno de anotações. Nele estão registrados todos os jogos dos campeonatos disputados pelo Uberaba Sport, desde 1970, com súmulas completas. Uma relíquia com detalhes minuciosos, como por exemplo, as anotações dos jogos do Colorado escritas com caneta vermelha.
 
Enquanto eu admirava o material, Creca deu continuidade aos relatos. “Tivemos três jogos mais emocionantes de todos. Dois e meio”, corrigiu. “O primeiro tempo contra o Flamengo no Maracanã. Os 5 a 0 no Santa Cruz e ainda os 3 a 1 no Mineirão, em cima do Cruzeiro de Raul, Pedro Paulo, Fontana, Dirceu Lopes, Tostão e Palhinha. Um timaço!”.
 
Para ir e vir dos jogos fora de Uberaba, Creca colocava na mala um pouco sorte. Muitas vezes, ele utilizou suas habilidades profissionais para conseguir a passagem de volta, o abrigo para dormir e a comida. “Quando fui pro Rio Grande do Sul eu só tinha o dinheiro da ida. Parei em uma churrascaria e expliquei a minha situação ao gerente. Trabalhei de garçom durante os dias que estive em lá. Paguei meu ingresso e a passagem de volta”.
 
Trabalhar para pagar as despesas das viagens era comum. Vender água nos pontos de ônibus de Curitiba ajudou o torcedor a voltar para casa. O mesmo aconteceu em Goiânia, quando ele conseguiu um carrinho para vender picolé.
 
Ao longo da entrevista, fiquei me perguntando se tinha valido a pena tudo aquilo, mas bastou olhar os olhos do torcedor, cheios de lágrimas, ao mostrar a camisa que ele mandou confeccionar para o ano do centenário, que a resposta foi imediata. Valeu.
 
Creca não se arrepende do emprego perdido na Coca-Cola nem de ter criado os dois filhos trabalhando de ambulante para não perder os jogos do Uberaba. Não lamenta ter pego o dinheiro do acerto com a Companhia Têxtil para comprar as passagens de avião e ir assistir o USC na Bahia e, muito menos, tem raiva por apanhar da torcida da Ponte Preta, em Campinas, e sair de lá com o corpo coberto de pó de mico. Creca não demonstra nada além de encantamento e orgulho. Creca vive o Uberaba Sport Club. Ali, numa casa no coração do bairro Santa Marta, de onde ele não pretende sair, com o Colorado sendo a sua maior alegria, mesmo nas mais duras derrotas. Creca sonha ganhar o prêmio da Mega-Sena da Virada. “Eu não preciso de dinheiro. Quero apenas ajudar o Uberaba”, garantiu, e eu desliguei o gravador. Não tinha mais o que questionar.

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